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Desigualdade chega ao mar: estudo revela que barreiras raciais e econômicas impedem milhões de aproveitar benefícios da costa
Pesquisa com quase 1.700 moradores da Califórnia mostra que acesso ao oceano vai muito além da proximidade geográfica. Racismo estrutural, renda, informação e infraestrutura limitam saúde, bem-estar e qualidade de vida de populações vulneráveis.
Por Laercio Damasceno - 13/07/2026


(Foto: Ricardo Moraes/Reuters)


Durante décadas, a Califórnia construiu a imagem de referência mundial na proteção de praias e ecossistemas marinhos. Com cerca de 1.350 quilômetros de litoral, legislação considerada uma das mais avançadas do planeta e políticas voltadas ao acesso público desde a aprovação do California Coastal Act, em 1976, o Estado tornou-se símbolo da conservação costeira. Mas um novo estudo revela que essa imagem esconde profundas desigualdades sociais.

Publicado na revista científica Nature Communications, o trabalho demonstra que o direito legal de acessar o mar não significa que todas as pessoas consigam usufruir igualmente dos benefícios físicos, emocionais e culturais proporcionados pelos ambientes costeiros. Barreiras econômicas, raciais, históricas e de infraestrutura continuam restringindo o contato de comunidades vulneráveis com o oceano.

A pesquisa, intitulada "Racial and economic disparities in coastal access and engagement mediate the ocean's contribution to human wellbeing", foi liderada por Timothy H. Frawley, do Instituto de Ciências Marinhas da Universidade da Califórnia em Santa Cruz (UC Santa Cruz), em parceria com pesquisadores da Universidade de Washington, Universidade Stanford, Universidade da Califórnia em Santa Barbara, Universidade de Kent (Reino Unido), California Marine Sanctuary Foundation e Native Coast Action Network.

Os cientistas entrevistaram 1.691 moradores da região central da Califórnia, utilizando uma metodologia participativa desenvolvida em parceria com organizações comunitárias. O objetivo era entender como fatores sociais influenciam o acesso ao litoral e os impactos desse acesso sobre o bem-estar humano.

Paletas de cores contínuas são usadas para ilustrar a natureza interconectada e multidimensional das barreiras de acesso e das dimensões do bem-estar. Uma versão tabular deste gráfico, com exemplos de subcategorias, está incluída como Tabelas Suplementares  1 e 2. Ícones do Google Material Icons (Licença Apache 2.0).

O resultado surpreendeu até os próprios pesquisadores.

Em vez de benefícios econômicos, como pesca, emprego ou alimentação, foram justamente os ganhos emocionais, psicológicos e sociais aqueles considerados mais importantes pelos entrevistados. Sentimentos de pertencimento, saúde mental, contato com a natureza, espiritualidade e convivência familiar apareceram como os principais benefícios proporcionados pelo oceano.

"Nossos resultados mostram que as contribuições subjetivas e relacionais do oceano para o bem-estar superam, de forma consistente, seus benefícios materiais", afirmam os autores.

Segundo Timothy Frawley, compreender essas dimensões é essencial para formular políticas públicas realmente inclusivas.

"O simples fato de uma praia ser pública não significa que todas as pessoas consigam chegar até ela, sintam-se bem-vindas ou possuam conhecimento e recursos para aproveitar esse ambiente", destaca o pesquisador.

A pesquisa identificou quatro grandes grupos de obstáculos ao acesso ao litoral: barreiras pessoais, barreiras sociais, limitações de infraestrutura física e ambiental e falta de conhecimento.

Entre todas elas, as barreiras relacionadas ao conhecimento — como desconhecimento das regras, falta de habilidades para atividades aquáticas ou ausência de educação ambiental — surgiram como um dos fatores mais importantes na exclusão de diversos grupos sociais.

O estudo também mostrou que moradores negros, asiáticos e residentes de áreas socialmente vulneráveis enfrentam significativamente mais dificuldades para utilizar praias e ambientes costeiros.

Além disso, mulheres relataram encontrar mais obstáculos do que homens para acessar e aproveitar esses espaços, enquanto moradores de baixa renda residentes longe do litoral apresentaram níveis ainda menores de utilização.

As desigualdades observadas possuem raízes históricas profundas.

Segundo os pesquisadores, políticas de segregação racial, remoções de comunidades indígenas, destruição de vilas pesqueiras asiáticas, restrições imobiliárias e décadas de discriminação contribuíram para afastar populações negras, indígenas e latinas das regiões costeiras.

Mais recentemente, processos de valorização imobiliária e gentrificação transformaram extensas áreas litorâneas em espaços ocupados predominantemente por moradores brancos, mais velhos e de maior poder aquisitivo.

"Essas diferenças não refletem escolhas individuais, mas processos históricos de exclusão que continuam influenciando quem pode ou não se beneficiar do oceano", afirmam os autores.

Outro dado relevante envolve a relação direta entre acesso e qualidade de vida.

Os pesquisadores verificaram uma forte associação entre o número de barreiras enfrentadas por uma pessoa e a redução dos benefícios que ela obtém do contato com o mar.

Quanto maiores eram os obstáculos relatados, menores eram os ganhos relacionados à saúde mental, integração comunitária, bem-estar emocional e satisfação com a vida.

A correlação estatística encontrada pelos cientistas evidencia que a exclusão dos ambientes costeiros também representa um problema de saúde pública.

Segundo o estudo, ambientes marinhos oferecem efeitos terapêuticos reconhecidos por diversas pesquisas internacionais, reduzindo níveis de estresse, ansiedade e depressão, além de fortalecer vínculos sociais.

Por isso, impedir o acesso de determinadas populações significa ampliar desigualdades já existentes.

"Nossa pesquisa mostra que pessoas que talvez mais precisassem desses benefícios acabam sendo justamente aquelas que encontram mais barreiras para alcançá-los", observam os pesquisadores.

Embora o levantamento tenha sido realizado na Califórnia, os autores afirmam que suas conclusões possuem relevância global.

Segundo eles, grande parte das políticas internacionais de gestão costeira ainda concentra esforços em indicadores econômicos — como turismo, pesca, energia e crescimento financeiro — enquanto aspectos ligados ao bem-estar humano permanecem subestimados.

Para os pesquisadores, o conceito de "economia azul" precisa incorporar dimensões sociais, culturais e emocionais, reconhecendo que o oceano também representa identidade, pertencimento, lazer, saúde e qualidade de vida.

O estudo apresenta ainda uma série de recomendações para governos e gestores públicos.

Entre elas estão investimentos em transporte público até as praias, programas gratuitos de educação ambiental e segurança aquática, redução de taxas de estacionamento, produção de materiais informativos em vários idiomas, recuperação ambiental de áreas costeiras degradadas, ampliação da participação das comunidades nas decisões sobre políticas marítimas e fortalecimento da infraestrutura de acesso.

Outra recomendação é ampliar programas de alfabetização oceânica, oferecendo cursos, atividades e experiências que aproximem crianças, jovens e adultos do ambiente marinho desde cedo.

Segundo Timothy Frawley, garantir acesso físico às praias é apenas o primeiro passo.

"O verdadeiro desafio é assegurar que todas as pessoas possam desenvolver uma relação significativa, segura e permanente com o oceano."

Para os autores, enfrentar as mudanças climáticas também exige enfrentar desigualdades sociais.

Eles argumentam que políticas de adaptação costeira somente serão eficazes se forem acompanhadas por estratégias capazes de reduzir injustiças históricas e ampliar a participação das populações tradicionalmente excluídas.

Ao revelar que o oceano produz benefícios muito além da economia — influenciando diretamente saúde mental, identidade cultural e qualidade de vida — o estudo propõe uma mudança de paradigma na gestão ambiental.

Mais do que preservar praias e ecossistemas, concluem os pesquisadores, será necessário democratizar o direito de pertencer a esses espaços.

Em um mundo cada vez mais urbanizado, marcado pelo aquecimento global e pela ampliação das desigualdades, o acesso ao mar deixa de ser apenas uma questão de lazer para tornar-se um indicador de justiça social.


Referência
Frawley, TH, Selgrath, JC, Gee, EKC et al. Disparidades raciais e econômicas no acesso e engajamento costeiro influenciam a contribuição do oceano para o bem-estar humano. Nat Commun 17 , 5975 (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-75034-4

 

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